quinta-feira, 19 de abril de 2012

Pitangas de Páscoa

      A festa da Imaculada Conceição (8 de dezembro) é tempo de pitangas em Piratini. Pitangas doces da beira dos riachos, no fundo dos campos. Tempos para namoros. Pretexto para caminhar e brincar.
      No Laranjal, porém, no passeio da rua e no jardim, a pitanga floresce e amadurece o ano todo. Várias floradas para festa das crianças e dos passarinhos.
      Hoje, 8 de abril, domingo de Páscoa, 9 horas, no sol cálido de outono que libera as crianças do friozinho da noite, lá vem Ana (6) e Juliana (4) em suas bibicletas cor de rosa. O olhar solícito da mãe acompanha-as desde a porta de sua casa até baterem no portão da casa do vô. E vêm correndo, bicicletas atiradas no pátio, com abraços e beijos para que o vô não lembre com tanta saudade da vó que se foi há duas semanas. E chegam convidando a Lica para apanhar pitangas.
      Dez minutos e estão sentadas, dois copos grandes de pitangas lavadas e frescas:
      - Olha essas pretas graúdas, vô, têm um azedinho doce tão bom... essas rosadas, são menores mas mais doces.
      Eu olho a ternura infinita daquelas duas netas, de olhos vivos, mais vivos que a vida, e pergunto:
      - Por que vocês trouxeram essas deliciosas pitangas para o vô?
      - Porque sim, ueh... pra dar pra ti. A gente gosta de ti.
      - Então vocês me dão, por nada? Porque sim? Que bom!... Vocês sabem, isto é o mais bonito da vida. Dar as coisas por nada, porque sim, porque gosta... Uma vez eu pensava: por que Deus fez o mundo e as pessoas? E descobri que era por isso: porque sim, por nada, porque gosta, de graça, pra fazer acontecer a alegria no coração da gente... O vô fica feliz porque na festa da Páscoa vocês trouxeram pitangas coloridas e gostosas... Que jeito bonito vocês encontraram para dizer: eu te quero bem.
      Uns minutos de filosofia e depois, beijos e traquinagens.
      O bando de priminhos chega e a casa se enche de música, de imaginações, de "eu era o homem aranha... eu... o Bem Dez...a Rapunzel..." E até pequenos choros do tombo do correr demais..." mas não foi nada"...
      Quando eles se vão e o silêncio da noite toma conta da casa, os risos, os beijos, a festa povoam cada canto. Não sei porque, mas a casa ri. E a lua cheia guarda no horizonte a esperança de um novo dia.
      Para além dos ovinhos e coelhos, a Páscoa traz pitangas coloridas e frescas como o olhar de uma criança.
      A Academia Sul-Brasileira de Letras, convidando você, caro leitor, para a posse de Inalva Nunes Fróes que acontecerá às 20 horas de amanhã, no salão San Sebastian, na estrada do Laranjal, lembra que é tempo de Páscoa, tempo de pitangas saborosas e coloridas, tempo da gratuidade do viver, do conviver e do conversar: tempo de literatura.
Jandir João Zanotelli (da coluna do Diário da Manhã, 19/04/12)

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